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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Eleanor Rigby

Eleanor Rigby gostava da igreja. Talvez porque houvesse passado tantos e tantos anos da sua vida lá. Quando era menina, sua mãe fazia ir todos os domingos. Quando se casou, naquela mesma igreja. E quando John se foi - ah, seu John! - naquela maldita guerra... Quem mais via as lágrimas que rolavam pelo rosto de Eleanor Rigby era a Virgem Maria. Talvez porque ninguém mais se importasse. Talvez porque a única pessoa que ia se ajoelhar naqueles bancos velhos de madeira era a senhora Rigby. Que as crianças conheciam só de nome, os adultos já não se importavam, afinal, ela vivia há tanto tempo naquela casa, sozinha... Nem o padre McKenzie se importava tanto assim. Sabia que ambos estavam presos às suas solidões e não queria interferir nisso. Não gostava de interferir. Eleanor já era conhecida como a senhora solitária e nada mudaria isso. Eleanor Rigby gostava de apoiar os braços na janela e lembrar quando era moça e John estava ao seu lado. Mas John Rigby estava morto e Eleanor Rigby era só uma senhora solitária. Quando Eleanor Rigby morreu, ninguém foi ao enterro. Padre McKenzie parou de costurar suas meias e foi sozinho ao cemitério, enterrando-a. Rezou baixinho pela alma solitária de Eleanor Rigby e voltou para casa. De novo, sozinho. Ninguém estava salvo.



Eleanor Rigby chegou ao céu e não estava mais tão só assim.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Clarisse

O sangue. Clarisse não gosta muito dele, porque ele mela o banheiro e ela tem que esfregar bastante dos ladrilhos brancos, para que sua mãe não perceba. Clarisse gosta quando pode ficar só em casa, só ela e seu canivete. Ele não gosta de cortar os pulsos - tentou uma vez, mas não conseguiu deixar a lâmina penetrar na pele. Gostava de cortar os tornozelos e todas aquelas veias verdes que apareciam pela sua pele branquinha. Clarisse morde o lábio, fazendo um corte extenso do tornozelo até o joelho. Muito, muito sangue. Ela se encosta na parede do banheiro, suspirando e olhando para o teto. Naquela perspectiva, as coisas parecem tão grandes que Clarisse quase acredita em Deus. Mas ela acha que deve acreditar, já perdeu um amiga e torce para ela estar no Céu. Clarisse lembra do caminho da escola para casa e sente nojo e faz um outro corte, na parte interna da coxa. Os homens que a chamam na rua. Os homens que passam a mão pelo seu corpo. Clarisse sente os olhos cheios de lágrimas, ela não gosta dos homens. Eles são maus, eles a fazem se sentir mal. Clarisse se levanta, com muita dor. Liga o chuveiro e a água escorre, fazendo as feridas arderem e o sangue ir para o ralo. Ela não se importa com essa dor - seus pais não estão em casa, então ela poderá tomar um ou dois (quem sabe, três) calmantes e passar o resto do dia dormindo. Ela quase sorrir ao pensar na sua mãe, indo vigiá-la à noite. Levantando o lençol em busca de cortes, mas Clarisse é esperta e usa uma calça velha como pijama. A água escorre vermelha e Clarisse acha aquilo tão bonito que quase acredita em Deus.


Clarisse só tem catorze anos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Andy, you're a star

Oi, Andy, você lembra de mim? Eu sou aquela menina que você costumava chamar de melhor amiga. Eu lembro que no colégio você arrasava como jogador de futebol. No campo, caramba, você brilhava! Eu lembro também da Lucy, a menina que você gostava. Tá, todo o colégio gostava dela e tudo o mais, mas você realmente gostava dela. A Lucy era a sua vida. Eu achava isso tão bonito, Andy, e eu ainda acho. Mesmo com todas as merdas que tu fazia - tu saía riscando os armários dos outros, escrevia "Andy" e deixava lá. Tu devia colocar uma estrelinha, sabia? Todo mundo saberia que era você. Tu era o nosso melhor jogador, Andy, e tu era um dos caras mais bonitos da cidade. Também, nossa cidadezinha minúscula de cem mil habitantes. Mas tu ainda era um dos mais bonitos. O melhor jogador do time. E eu lembro de você falando quando levou Lucy para o carro e vocês ficaram se amassando lá, mas você não quis transar. Porque essa menina era teu mundo, Andy, e tu não ia estragar uma noite maravilhosa na parte de trás de uma caminhonete velha. Eu também nem queria que tu fizesse isso, aquele carro era nosso, Andy. A propriedade estava no seu nome, mas era lá que a gente ia conversar, comer M&M's depois da aula e, às vezes, dar uns beijinhos, porque melhores amigos são para essas coisas. Às vezes eu queria que tu não fosse tão bom em tudo, Andy. Porque os olheiros te encontraram e agora tu tá aí, jogando futebol num time grande e eu tô aqui, ensinando Física na nossa antiga escola. Aí eu olho para o campo e lembro de você, olho para os armários e vejo seu nome em todos eles. Fico me perguntando: a escola é pobre ou ninguém nunca teve coragem de tirar teu nome daí? Mesmo sabendo que é a primeira, eu prefiro acreditar na segunda. Às vezes, eu passo pela Lucy, andando na rua. Ela casou com o David, acho que tu sabe disso. Bem, é a vida. A sua vida corrida não é uma vida que a Lucy aguentaria, mesmo sabendo que você a amava tanto. Ela tá feliz. Eu também. E você também, Andy, porque tu nasceu para ser feliz. Tu é uma estrela, sabia? Para mim e para mais ninguém.