sábado, 21 de agosto de 2010

Eu você Fortaleza

Não importa.

Não importa os nossos poros totalmente abertos, gotas imensas de suor saindo pela testa, pela nuca, pelos braços. Não importa passear pelo Dragão do Mar às três da tarde, ou sair andando pelo centro ao meio dia. Não importa as milhares de reclamações pelo calor, pelas gagantas secas, pelos olhos ardendo, pelas respirações ofegantes.

Não importa nem quando sentamos num banco da Praça do Ferreira e vem um cara nos oferecer maconha. Não importa que a Academia Cearense de Letras fique num dos lados mais perigosos do centro. Nem que a Praça dos Leões tenha se tornado um prostíbulo.

Não importa que ninguém se banhe na Praia de Iracema, com aquele mar nojento. Não importa que a Praia do Futuro esteja tão lotada de barracas que não tem nem lugar para estacionar. O que importa é correr descalço pela areia que queima a sola dos pés até chegar ao mar.

Não importa que exista a Fortaleza-Aldeota e a Fortaleza-Resto-da-Cidade. Não importa a porra dos buracos acabando com os carros, as greves de ônibus, os colégios pichados, a porra da Luiziane fazendo propaganda da própria mãe para as eleições.

Não importa.

Eu olho para o mar, as ondas que se arrastam, e eu vejo o próprio Dragão do Mar impedindo os escravos de serem comercializados. Eu olho para a Praça dos Leões e vejo as mulheres passeando com seus irmãos. Eu olho para a Igreja-cujo-nome-não-lembro e vejo os escravos sendo enterrados. Eu vejo todas essas coisas.

Vocês me fazem ver. Obrigada.

(verdes mares bravios de minha terra...)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Breve explicação fotográfica com legenda

It was only a kiss.

O sinal está fechado para nós.
Tive medo e não consegui dormir.

Olha só o que eu achei: cavalos marinhos.
É ter por quem nos mata lealdade.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Eleanor Rigby

Eleanor Rigby gostava da igreja. Talvez porque houvesse passado tantos e tantos anos da sua vida lá. Quando era menina, sua mãe fazia ir todos os domingos. Quando se casou, naquela mesma igreja. E quando John se foi - ah, seu John! - naquela maldita guerra... Quem mais via as lágrimas que rolavam pelo rosto de Eleanor Rigby era a Virgem Maria. Talvez porque ninguém mais se importasse. Talvez porque a única pessoa que ia se ajoelhar naqueles bancos velhos de madeira era a senhora Rigby. Que as crianças conheciam só de nome, os adultos já não se importavam, afinal, ela vivia há tanto tempo naquela casa, sozinha... Nem o padre McKenzie se importava tanto assim. Sabia que ambos estavam presos às suas solidões e não queria interferir nisso. Não gostava de interferir. Eleanor já era conhecida como a senhora solitária e nada mudaria isso. Eleanor Rigby gostava de apoiar os braços na janela e lembrar quando era moça e John estava ao seu lado. Mas John Rigby estava morto e Eleanor Rigby era só uma senhora solitária. Quando Eleanor Rigby morreu, ninguém foi ao enterro. Padre McKenzie parou de costurar suas meias e foi sozinho ao cemitério, enterrando-a. Rezou baixinho pela alma solitária de Eleanor Rigby e voltou para casa. De novo, sozinho. Ninguém estava salvo.



Eleanor Rigby chegou ao céu e não estava mais tão só assim.

domingo, 8 de agosto de 2010

Day 24 — The person that gave you your favorite memory

Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia?

Vamp's,

A maior parte dessa carta á unicamente para você, mas devemos dar uma menção honrosa para o Cord. Afinal, minhas memórias preferidas todas tiverem você, mas aquela é especial. E eu não ligo de estar imitando o Cord nisso, porque a importância foi a mesma, para os três. Ron, Harry e Hermione aprenderam isso lutando contra um trasgo montanhês, a gente aprendeu brincando nas estufas.

Quando eu lembro daquela viagem - dela como um todo, incluindo os momentos anteriores, nós três sentados numa mesa do FB2 trocando livros - me dá uma saudade tão grande... Mas é ma saudade gostosa, um calor no peito. Porque fomos nós três lá, nós três brincando de pegar gravetos no chão e jogar feitiços, nós três duelando, eu e o Cord falando que quando você lesse o quinto livro iria entender o ódio pela Dolores.

Essa memória merece um destaque especial e eu comecei por ela. Mas você não me deu só uma memória favorita, Vamp's, você me deu várias. Que são especiais para mim, porque você estava lá. Uma das coisas que eu mais lembro é quando eu não consegui te beijar. Você lembra de Rudy e da Liesel? Ah, mas não terminou de ler A Menina... Posso apenas dizer que eu era o Rudy, implorando seus beijos você era a Liesel. E quando você aceitou, eu tive medo e deixei para lá. E olhando de dentro isso me deixa tão feliz, porque prova que eu tenho alguma coisa... diferente do que eu acho que sou.

Você faz com que eu acredite em mim, Vamp's, e não existem palavras no mundo para agradecer isso.

Eu gosto de lembrar quando você veio dormir aqui em casa e ficamos tirando fotos. Eu gosto de lembrar de quando íamos nas locadoras e passávamos horas para escolher um simples filme. Eu gosto de lembrar que você foi a primeira pessoa a ver meu cabelo roxo. De você e eu assistindo D.Gray-man. De você vindo para mim com as cifras de Regret. De você tocando teclado.

Você é toda uma memória muito linda, Vamp's. Até mesmo quando discutimos por causa do Pybore, haha. Você é uma pessoa tão diferente de mim. Você é tão bonita, por dentro e por fora. E eu fico feliz sempre que lembro que eu te conheci quando você ainda parecia com a Pansy (ou: carinha de bulldog, hahaahah) e agora você é tão linda. Eu lembro que você nunca falava ao telefone, mas eu te ligava tanto que você aprendeu a conversar.

Tudo que eu lembro com você ganha mais amor, Vamp's. Você não me deu a minha memória favorita, você é.



E, no futuro, quando eu tiver um vira-tempo, vou voltar. Só para nos ver abraçadas no dia do meu aniversário-sarau.

Com todo o amor que houver nessa vida,

Morg.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Clarisse

O sangue. Clarisse não gosta muito dele, porque ele mela o banheiro e ela tem que esfregar bastante dos ladrilhos brancos, para que sua mãe não perceba. Clarisse gosta quando pode ficar só em casa, só ela e seu canivete. Ele não gosta de cortar os pulsos - tentou uma vez, mas não conseguiu deixar a lâmina penetrar na pele. Gostava de cortar os tornozelos e todas aquelas veias verdes que apareciam pela sua pele branquinha. Clarisse morde o lábio, fazendo um corte extenso do tornozelo até o joelho. Muito, muito sangue. Ela se encosta na parede do banheiro, suspirando e olhando para o teto. Naquela perspectiva, as coisas parecem tão grandes que Clarisse quase acredita em Deus. Mas ela acha que deve acreditar, já perdeu um amiga e torce para ela estar no Céu. Clarisse lembra do caminho da escola para casa e sente nojo e faz um outro corte, na parte interna da coxa. Os homens que a chamam na rua. Os homens que passam a mão pelo seu corpo. Clarisse sente os olhos cheios de lágrimas, ela não gosta dos homens. Eles são maus, eles a fazem se sentir mal. Clarisse se levanta, com muita dor. Liga o chuveiro e a água escorre, fazendo as feridas arderem e o sangue ir para o ralo. Ela não se importa com essa dor - seus pais não estão em casa, então ela poderá tomar um ou dois (quem sabe, três) calmantes e passar o resto do dia dormindo. Ela quase sorrir ao pensar na sua mãe, indo vigiá-la à noite. Levantando o lençol em busca de cortes, mas Clarisse é esperta e usa uma calça velha como pijama. A água escorre vermelha e Clarisse acha aquilo tão bonito que quase acredita em Deus.


Clarisse só tem catorze anos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Day 25 — The person you know that is going through the worst of times

- É simples. - Abracadabra também se virou para Anne

- Feche seus olhos e simplesmente acredite em... magia. Abracadabra.

- e beijou Anne.


Tinha gosto de amor


Anne,




Eu não sei porque você esá mal, mas eu até imagino que seja a saudades de casa. Mas deve ter algo mais. Eu não me importo em não saber a razão (tudo bem, eu me importo e gostaria de saber), mas eu quero saber se você está bem. Eu preciso que você me diga que está bem, Anne. Porque quando eu vejo as suas mensagens de tristeza, eu fico triste. É sério.




Eu quero também que você saiba que pode falar comigo sempre, sempre, sempre. Nunca vai estar atrapalhando nada. Pode desabafar comigo o quanto quiser, mesmo que eu saiba que você normalmente não faz esse tipo de coisa.




Fiquei bem, Anne. Eu não consigo estender essa carta porque eu não sei pelo que você está passando, mas independente do que seja, conte comigo. E fique bem, fique bem, fique bem. Quando estiver triste, lembre-se do Lucian. Ele que segurava a sua mão quando você passava por aquele beco escuro, não é? Lembre-se da Charlotte também, porque ela adoraria você e seria muito cuidadosa na hora da sua... morte, haha. Lembre-se de toda a família Addams.

Lembre-se de todos os carinhos trocados por msn.




Você vai se lembrar, sim, porque eu nunca vou te deixar esquecer.


(muito mais que) doze beijos,




Morg.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Day 11 — A Deceased person you wish you could talk to

Assim como o poeta
Só é grande se sofrer

Oi, Álvares.

As pessoas certamente já estão sem paciência das minhas cartas para você - e isso porque elas nem viram as escritas à mão. Mas essa carta tinha que ser para você, pura e simplesmente. Eu nem irei me estender muito nela ou algo assim - já falei tanto em outras cartas, outras épocas - só direi que eu realmente desejei escrever para outra pessoa. Para o Erico Verissimo. Machado de Assis. Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade. Porque, bem, esses são normalmente os mortos com quem eu gostaria de poder falar. Mas não seria tão certo quanto escrever para você.

Mas eu vou abandonar o normal teor ultrarromântico e desejoso das minhas cartas. Eu vou falar contigo sobre porque eu te admiro. Porque você, dentre todos os mortos, é o que eu gostaria de conversar com. Você não é melhor do que nenhum daqueles lá de cima - isso não quer dizer que seja pior, é claro. Eu queria falar com você porque eles amadureceram e você não. Eles viveram tempo o suficiente para aprimorar a escrita, para ver coisas da vida e passarem para o papel. Você, não. Você teve 20 anos, nada mais que isso.

E nesses 20 anos, conseguiu fazer poesia, crônicas e uma peça. Além dos ensaios e discursos. E eles não são a obra-prima brasileira, mal estão preocupadas com o país e Solfieri não é nem um nome brasileiro. Você vivia com a cabeça na Europa. A sua poesia era... importada. Calma, sem ofensas! Até porque, como eu te ofenderia?

É só para dizer que eu te admiro. Você não teve nenhum feito heroico ou nenhuma poesia que todos saibam de cor. Mas você fez com que eu soubesse poesias suas de cor. Você fez com que eu gostasse de Literatura. Você mexeu em tanta coisa em mim, eu lia as suas palavras e só conseguia pensar no quão fantástico você era. Em como você seria se tivesse vivido mais - e aí eu imagino que poderia ser absolutamente chato e sem graça, sem o ardor adolescente.

Então, Álvares, obrigada. Você me deixa muito feliz.

E estou com preguiça de colocar uma foto.

Com amor,

Maria Sera... Ops. Morgana.